Por Daniela Wey

Há milhares de anos o conhecimento das pistas temporais do ambiente é usada pelo homem para caçar, plantar, colher. A experiência do ciclo da vida é algo introjetado no ser humano. Contudo o conhecimento de que a dinâmica temporal de um organismo é independente da variação cíclica do ambiente externo é extremamente recente.

No século XIX pesquisadores descobriram que as variações fisiológicas e comportamentais de um organismo vivo não aconteciam como consequência direta das variações ambientais, mas eram geradas endogenamente através de estruturas denominadas “relógios biológicos”.

O fato de um organismo possuir estruturas neurais que temporizam suas funções fisiológicas/comportamentais e, por sua vez, são ajustadas pelo ciclo ambiental (principalmente a noite e o dia) foi de certa forma um avanço no conhecimento científico. A ciência que estuda o tempo na biologia é conhecida como Cronobiologia, termo cunhado em 1969 pelo alemão Franz Halberg (Halberg, 1969).

Mas o que são ritmos biológicos? Um ritmo biológico é toda a expressão fisiológica e/ou comportamental de um organismo vivo que se expressa com um periodicidade regular e é gerada internamente, como por exemplo a secreção de um hormônio, o momento de frutificação das plantas, a época de acasalamento dos animais, o ciclo menstrual da mulher, etc.

Entre os ritmos biológicos humanos mais estudados temos a variação entre os estados de sono e vigília, conhecido como ciclo vigília/sono (CVS). Como todos os ritmos biológicos humanos a expressão do CVS sofre modificações ao longo da vida. As necessidades de sono de um bebê diferem para um adolescente e deste para um indivíduo adulto ou um idoso. Algumas características nos padrões do CVS são peculiares a determinadas faixas etárias. Por outro lado, existem diferenças individuais quanto a necessidade de sono entre indivíduos com a mesma idade. De acordo com a preferência de horário de início e final de sono existem indivíduos matutinos, que dormem cedo e acordam cedo, e indivíduos vespertinos, que dormem mais tarde e acordam mais tarde.

VOCÊ DORME COMO UM EMPRESÁRIO OU COMO UM DELINQUENTE?

Na adolescência ocorre uma série de transformações hormonais e comportamentais no nosso organismo. Muitas pesquisas indicam que com o avanço da puberdade a maioria dos jovens passa a dormir e acordar mais tarde. Além dessa característica endógena as atividades sociais do adolescente se intensificam principalmente nos horários mais tardios, atrasando o horário de início de sono para estes indivíduos.

No entanto, segundo a maioria das instituições escolares do Estado de São Paulo, durante a passagem do primeiro para o segundo ciclo as aulas passam a acontecer no período da manhã. Desta maneira cria-se um conflito temporal, no qual o jovem que está “mais vespertinos” é submetido a compromissos sociais mais matutinos.

Assim fica estabelecido um cenário de “seleção profissional” para o jovem. Se ele dorme tarde e acorda tarde e estuda pela manhã, durante os dias letivos passa a sofrer privação de sono, e, como consequência sentirá mais sonolência durante as aulas, podendo até cochilar na frente do professor!

Como a escola trata esse aluno? Ora como preguiçoso, irresponsável, desatento, ou seja, com uma série de adjetivos que refletem o pensamento de uma sociedade onde se cultua o hábito de dormir pouco e produzir muito.

TEMPO É DINHEIRO!

Está na hora de acordar para este conflito! É preciso considerar as necessidades biológicas ou temporais de um adolescente antes de planejar suas atividades dentro de uma escola. A escola deveria ser o local em que se cria a possibilidade de desenvolver potenciais. Não deveria ser o local onde se seleciona o indivíduo pelas suas necessidades de sono.

O adolescente não dorme tarde e acorda tarde por que quer! Esse comportamento está ditado pelos seus relógios biológicos!

Leituras e Sites:

Ladrões de Sono – Stanley Coren

Cronobiologia: princípios e aplicações – Nelson Marques & Luiz Menna-Barreto

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