Por Daniela Wey

Calma não é o que você está pensando!

Quantas horas são necessárias para dormirmos bem?

Para esta questão segue a recomendação de que nosso organismo necessita entre 7-8 horas de sono. Será?

Um sinal de que dormimos a quantidade de horas suficiente está na disposição que sentimos para realizar nossas atividades no dia seguinte. A recomendação de 7-8 horas de sono é baseada num valor médio da população que não leva em consideração as diferenças individuais, de gênero, e ontogenéticas, ou seja, todo mundo seria igual.

O que acontece com aquelas pessoas que precisam de somente 6 horas para dormir? Seriam casos patológicos? Seriam considerados indivíduos insones? Certamente você deve estar pensando que, com tanta coisa pra fazer no seu dia, gostaria de sofrer de uma patologia destas. Por outro lado, existem pessoas, como eu, necessitam de 9 horas ou mais para dormir bem. Ao contrário dos indivíduos classificados como “pequenos dormidores” (que dormem apenas 6h ou menos) os “grandes dormidores” (que dormem 9h ou mais) são muitas vezes considerados preguiçosos e poderiam aprender a dormir “direito” caso fossem “treinados” para isto. Alguns cientistas, no entanto, têm demonstrado que essa preferência não se resume a um treinamento. Um dos primeiros relatos científicos sobre pequenos e grandes dormidores foi feito por Wilse B. Webb em 1979 e este assunto foi retomado em 2003 por Aeschebach e colaboradores. Este grupo de pesquisadores, liderados por Thomas Wehr, demonstrou que a necessidade de horas de sono é muito mais do que uma questão de treinamento, mas está atrelada a diferenças no funcionamento do sistema de temporização circadiano. Descrito por Robert Moore em 1992, o sistema de temporização circadiano sincroniza os ritmos de um organismo com os ritmos ambientais. Através da retina a variação de claro/escuro ambiental chega a um conjunto de neurônios localizados na região anterior do hipotálamo, conhecidos como núcleos supraquiasmáticos, os quais emitem sinais periódicos que modulam a expressão de variáveis fisiológicas e comportamentais. Alguns destes sinais eferentes como a secreção de melatonina, de cortisol, e a temperatura central, promovem/modulam o ciclo vigília/sono. Aeschebach e colaboradores verificaram que os grandes dormidores não apenas dormem mais cedo e acordam mais tarde do que os pequenos dormidores, mas também prolongam o intervalo noturno dos sinais temporais eferentes. Enquanto os grandes dormidores atrasam o horário de acordar, os pequenos dormidores atrasam o início do sono em relação ao início da queda da temperatura central e ao aumento de melatonina plasmática, ou seja, essas pessoas apresentam uma tolerância maior aos sinais circadianos que promovem o sono e por isso vão para cama num horário mais tardio do que é “indicado” pelo sistema de temporização. O horário de acordar nos dois grupos foi muito próximo ao término das variáveis fisiológicas circadianas, no entanto, o intervalo entre o pico de cortisol e o horário de acordar foi 2,5 horas maior para os grandes dormidores do que para os pequenos. Estes resultados indicam que, apesar da maioria das pessoas se identificarem com a recomendação de 8 horas de sono/noite, algumas pessoas precisam de uma quantidade menor de horas de sono e outras de uma quantidade maior. A novidade trazida pelo trabalho de Aeschbach é que a quantidade de horas de sono segue um padrão de controle interno passível de ajustes externos “pero no mucho”. A recomendação a ser seguida é que diante de desafios temporais, como horários de trabalho ou de aula, cada pessoa saiba dos seus limites e possibilidades no sentido de não sofrer as consequências no dia seguinte da privação de sono. Os resultados encontrados também são relevantes para os estudos das patologias relacionadas à duração de sono, que, por exemplo, ocorrem na depressão.

AESCHBACH, D.; SHER, L.; POSTOLACHE, T.T.; MATTHEWS, J.R.; JACKSON, M.A.; WEHR, T.A.  A longer biological night in long sleepers than in short sleepers. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v.88, n.01, p.26-30. 2003.

Moore, R.Y.  The suprachiasmatic nucleus and the circadian timing system. Discussions in Neuroscience: circadian rhythms, v.08, n.2/3, p.26-33. 1992.

WEBB, W.B.  Are short and long sleepers different?  Psychological Reports, v.44, p.259-264. 1979.

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